domingo, 14 de agosto de 2011

FORMALISMO RUSSO

[Texto-base para o Seminário 1, de 26/08]

(...) Roman Jakobson (...) é responsável por uma das teorias mais difundidas no Ocidente: a idéia de que a função poética da linguagem consiste na ambigüidade da mensagem mediante o adensamento do significante, princípio desenvolvido a partir de pressupostos de [Vítor] Chklovski.

De fato, Chklovski é o desencadeador da abordagem lingüística da literatura, pois seu ensaio foi o primeiro a sistematizar a idéia de língua poética como um desvio da língua cotidiana. Da mesma forma, entende a língua poética como uma oposição ao cânone literário dominante. Introduz, com isso, a noção de que o valor artístico de uma obra decorre não apenas de sua estrutura verbal, mas também da maneira como é lida. Conforme essa perspectiva, não existe valor artístico em termos absolutos, pois afirma que há objetos concebidos como prosaicos e percebidos como poéticos, assim como há objetos concebidos como poéticos e percebidos como prosaicos. (...)

Chklovski define a arte como a singularização de momentos importantes. Em rigor, os momentos tornam-se importantes somente depois de submetidos ao processo de singularização artística, porque, na vida prática, as coisas se tornam imperceptíveis em sua totalidade. Movido pela pressa e pelo empenho em imediatizar o cotidiano, o homem acaba por perder a consciência individual das ações, dos objetos e das situações. Por isso, abreviam-se palavras, criam-se siglas, desenvolvem-se esquemas para tornar mais rápida a superação dos compromissos e dos contatos com as pessoas. a lei da economia das energias reduz tudo a números ou a volumes sem identidade, processo que objetiva o máximo de rendimento com um mínimo de atenção. Esse processo – pensa Chklovski – resulta na automatização da vida psíquica, pois, em nome da rapidez, anula-se a intensidade do ato de conhecer. Nele, as coisas possuem importância apenas quando reconhecidas, esvaindo-se o entusiasmo da descoberta. O próprio conceito de aprendizado pressupõe o uso automático das noções e dos movimentos. O simples fato de uma ação se tornar habitual basta para desencadear a inconsciência em quem a executa.

Assim, a principal função da arte seria restaurar a intensidade do conhecimento, promovendo a virgindade dos contatos e o encanto da descoberta. Nesse sentido, o artista deve criar situações inéditas e imprevistas, em busca da restauração do ato de conhecer. Numa palavra, a finalidade da arte é gerar a desautomatização, mediante o estranhamento ou a singularização da estrutura que o artista oferece à contemplação. Se algo aspira à condição de enunciado artístico, precisa ser dito de forma impressionante. Ao contrário do convívio cotidiano com as coisas, o convívio com a arte deve ser particularizado, dificultoso e lento. Tomando o texto poético como metonímia da arte, o morfologista russo entende que a particularização do texto decorre de técnicas específicas aplicadas às palavras, em seus níveis semântico, sintático e fonológico: instaura-se a consciência lingüística da literatura.

Desfaz-se, enfim, a concepção do senso comum segundo o qual literatura é expressão imediata da vida, como se o texto não fosse um simulacro convencional de signos. Pela perspectiva desses teóricos, o desconforto dos enunciados inovadores integra o complexo de propriedades que atribuem valor estético ao texto. (...)

Segundo a teoria de Chkloviski, as imagens são um dos dispositivos pelos quais o poeta singulariza o texto, mediante a produção do estranhamento, responsável pela dificuldade que atribui densidade à percepção estética. Elas são uma das possíveis manifestações da idéia de procedimento artístico, que é o conjunto de atitudes rumo ao desvio da linguagem comum em favor do insólito e do imprevisto. Embrionária em Aristóteles, essa idéia dominou as perspectivas seiscentistas, chegando até o século XVIII, quando encontrou clara expressão em Muratori (...) onde se lê que o poeta reveste suas matérias “de tal maneira e lhes dá um tal colorido que aparecem cheias de novidade e de beleza, por virtude do maravilhoso e esquisito artifício, da vivacidade da pintura e do novo ornato poético que lhes deu”.

(...)

Na literatura brasileira talvez o exemplo mais evidente de procedimento artístico bem sucedido se encontra em Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que a perspectiva de um defunto é responsável pelo estranhamento do texto. A abertura do capítulo XI de O Alienista também se constrói conforme o princípio da singularização, capaz de conduzir o leitor ao centro da narrativa:

E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro em que ficou a vila ao saber um dia que os loucos da Casa Verde iam todos ser postos na rua.
Todos?
­ Todos.
– É impossível; alguns sim, mas todos...
– Todos. Assim o disse ele no ofício que mandou hoje de manhã à câmara”.

O estranhamento provocado pelo texto decorre sobretudo da inclusão do leitor no universo dos habitantes de Itaguaí, cujo espanto com o recolhimento dos loucos fora tão grande quanto com a súbita libertação deles: conhecedor do assombro em que vivia a cidade, o leitor é convidado a sentir o mesmo espanto dos moradores, deixando a posição de espectador para assumir o estatuto de personagem (leitor incluso). A desautomatização decorre também da reiteração intensiva do vocábulo todos, pronunciado quatro vezes em diferentes tons de surpresa.

A abordagem tradicional afirma que O Alienista é uma novela sobre a falácia da ciência, a precariedade do conceito de loucura e o autoritarismo dos governos. Os formalistas colocariam o problema de outra forma: as incertezas da ciência e a arbitrariedade dos governos são um dispositivo para o exercício da alegoria. A motivação inicial de Machado teria sido a formulação da sátira ou do escárnio alegórico, categorias preexistentes ao tema da loucura mal interpretada. Assim, os procedimentos buscam suas matérias cujo resultado é a forma literária. Com isso, elimina-se a idéia de que as matérias podem ser incluídas ou excluídas de um texto, como se fossem o conteúdo de uma garrafa. Conforme essa visão, a literatura nunca é sobre as coisas ou situações. Será sempre o resultado da adequação entre procedimento e matéria, fenômeno que automaticamente a insere num código de referência literária.

Surge daí um conceito funcional de literatura, entendida não mais como um discurso ornado e ficcional que visa à imortalidade, mas como um modo especial de articulação da linguagem, cuja idéia de valor é rigorosamente relativa, pois leva em conta tanto a estrutura verbal do texto quanto a percepção do leitor e o eventual desgaste das formas, que, de estranhas e desautomatizadoras, podem, com o passar do tempo, se tornar corriqueiras e previsíveis. Até então, jamais se chegara a um conceito tão relativo do valor da obra de arte, que passou a ser definida como uma estrutura sígnica contrária ou divergente do padrão dominante.

(...) ... todas as escolas literárias fundamentam suas posturas com a idéia da incorporação do real: assim procederam os românticos, os realistas, os simbolistas, os futuristas, os impressionistas e os expressionistas. Entre nós, convém lembrar que até a poesia concreta, ao romper com a linguagem discursiva, opinião fez sob o pretexto da incorporação de certos traços dinâmicos da realidade industrializada.

Os românticos alemães afirmavam que o reino da fantasia é a própria realidade. Novalis, em particular, proclamou que, quanto mais poético o enunciado, tanto mais real. Como conclusão, Jakobson propõe que se tome o termo realismo como um código convencional segundo o qual as diversas gerações procuram validar seus experimentos poéticos. Mas não deixa de explicitar que a realidade não se confunde com a arte, cuja estrutura sígnica deve ser apreendida com toda a consciência das convenções intrínsecas a seu modo de ser.

[Fortuna Crítica – Ivan Teixeira. Cult 13, ago/1998]

CRÍTICA LITERÁRIA

[Texto para a aula do dia 19/08]

“É mais difícil interpretar as interpretações do que interpretar as coisas, e há mais livros sobre os livros do que sobre outro assunto”, já afirmava Montaigne. E o autor dos Ensaios prosseguia: “limitamo-nos a glosar uns aos outros. Tudo pulula de comentários; de autores há grande carência”. Quatro séculos mais tarde, o dito nada perdeu de sua pertinência. Os violentos debates travados, a partir dos anos 60, em torno do que se chamou de “nova crítica”, tinham certamente como motivos imediatos questões de método; mas, em profundidade, eles levantavam a espinhosa questão do papel da crítica nos modos de consumo literário. Papel necessário, segundo alguns, nefasto, segundo outros.

Não se pode negar que certo terrorismo metodológico e ideológico condicionou fortemente, há algumas décadas, o ensino da literatura e a própria criação literária. Julien Gracq, em La littérature à l’estomac, resolveu denunciar esse desvio que privilegia a palavra do crítico em detrimento da obra do escritor. E em Lettrines ele indaga: “Que dizer àquelas pessoas que, pensando possuir uma chave, não sossegam enquanto não dispuserem vossa obra em forma de fechadura?” O perigo do discurso crítico é, com efeito, sempre empobrecer a obra a que ele se refere, em nome de uma coerência artificial ou de um dogmatismo metodológico. Céline achava “vergonhoso” e “humilhante” o espetáculo do “letrado esmiuçando maliciosamente um texto, uma obra” (Ninharias por um massacre). Bem antes dele, Montesquieu assimilava os críticos aos “maus generais de exército, que, não podendo invadir um país, contaminam-lhe as águas”.

A crítica seria, então, mortal para a literatura? Ela lhe é igualmente indispensável, e seu desconforto vem do paradoxo que a constitui: a obra literária necessita de um discurso que a comente e esclareça; ela o exige mesmo, visto que pertence ao universo da linguagem; mas chega sempre um momento em que o ato crítico tende a bastar-se a si mesmo, e a relegar a obra à posição de simples pretexto.

Essa legitimidade, e esses perigos, caracterizam todas as atividades que, de perto ou de longe, participam do comentário dos textos: a resenha jornalística, a exposição universitária, a “explicação do texto” praticada em aula, a reflexão do “poeticista” e mesmo a troca de opiniões entre dois leitores... Em todas essas situações, a literatura é objeto de discurso, de avaliação e de julgamento.

Foi a crítica universitária (...) que mais se interrogou sobre as modalidades de tal apreciação. Entre um Baudelaire, para quem a crítica só podia ser apaixonada, e os comentaristas atuais, geralmente ciosos de ponderação, foram as ciências humanas que subverteram as condições do discurso realizado sobre a literatura. Os desenvolvimentos da História, da Sociologia, da Psicanálise constituíram o sujeito humano em objeto de análise e o texto literário em espaço de conhecimento tanto quanto em meio de fruição estética. A crítica tendeu, pois, a tornar-se ciência, mobilizando procedimentos codificados de análise e uma bagagem conceitual precisa.

Geralmente estamos convencidos, atualmente, dos perigos de uma crítica ciosa unicamente de cientificidade: para que ela seja possível, não seria preciso que, primeiro, o texto literário pudesse ser assimilado a um puro objeto? Ora, um texto é sempre lido por alguém: sua existência depende do olhar de um leitor, e das condições sempre variáveis de sua recepção. Mas tal evidência não leva de modo nenhum a uma fria concentração sobre o subjetivismo da apreciação pessoal: quem poderia desdenhar os novos meios de compreensão que devemos à História, à Sociologia, à Psicanálise ou à Lingüística?

(...)



(BERGEZ, Daniel. IN: BERGEZ, Daniel (org.) Métodos críticos para a análise literária.Trad. de Olinda Maria Rodrigues Prata. São Paulo: Martins Fontes, 1997)

GRUPOS E CALENDÁRIO DOS SEMINÁRIOS

Grupo 1: Lúcio, Jéssica, Aguida e Fabien
Grupo 2: Caio, Rodolfo, Karilayne e Juliana
Grupo 3: Joseilma, Joana, Aline e Rafaela
Grupo 4: Itajailson, Ana P., Valéria e Raissa
Grupo 5: Daiane, Elizama, Jonatha e Simone
Grupo 6: Anna D, Jeane B., Jeane M. e Patrícia

Seminário 1 - 26/08 - Grupo 1 (Apresentadores) e Grupo 2 (Debatedores)

Seminário 2 - 09/09 - Grupo 2 (Apresentadores) e Grupo 3 (Debatedores)

Seminário 3 - 23/09 - Grupo 3 (Apresentadores) e Grupo 4 (Debatedores)

Seminário 4 - 07/10 - Grupo 4 (Apresentadores) e Grupo 5 (Debatedores)

Seminário 5 - 21/10 - Grupo 5 (Apresentadores) e Grupo 6 (Debatedores)

Seminário 6 - 04/11 - Grupo 6 (Apresentadores) e Grupo 1 (Debatedores)

INICIANDO

Olá...

Estamos inaugurando este novo canal, mais direto, mais interativo, para nossas comunicações a respeito dos assuntos a serem vivenciados em "Tópicos em Crítica Literária".

Estarei postando aqui textos, informações e tudo mais que for necessário para nos mantermos em sintonia.

Vocês podem utilizar este espaço para também se comunicar comigo. Basta usar o espaço dos comentários, que serão lidos por mim, mas NÃO SERÃO PUBLICADOS, a menos que seja manifestada essa vontade.

Espero que este seja um semestre bastante produtivo para todos.

Abraço,

Edson Tavares