(...) Roman Jakobson (...) é responsável por uma das teorias mais difundidas no Ocidente: a idéia de que a função poética da linguagem consiste na ambigüidade da mensagem mediante o adensamento do significante, princípio desenvolvido a partir de pressupostos de [Vítor] Chklovski.
De fato, Chklovski é o desencadeador da abordagem lingüística da literatura, pois seu ensaio foi o primeiro a sistematizar a idéia de língua poética como um desvio da língua cotidiana. Da mesma forma, entende a língua poética como uma oposição ao cânone literário dominante. Introduz, com isso, a noção de que o valor artístico de uma obra decorre não apenas de sua estrutura verbal, mas também da maneira como é lida. Conforme essa perspectiva, não existe valor artístico em termos absolutos, pois afirma que há objetos concebidos como prosaicos e percebidos como poéticos, assim como há objetos concebidos como poéticos e percebidos como prosaicos. (...)
Chklovski define a arte como a singularização de momentos importantes. Em rigor, os momentos tornam-se importantes somente depois de submetidos ao processo de singularização artística, porque, na vida prática, as coisas se tornam imperceptíveis em sua totalidade. Movido pela pressa e pelo empenho em imediatizar o cotidiano, o homem acaba por perder a consciência individual das ações, dos objetos e das situações. Por isso, abreviam-se palavras, criam-se siglas, desenvolvem-se esquemas para tornar mais rápida a superação dos compromissos e dos contatos com as pessoas. a lei da economia das energias reduz tudo a números ou a volumes sem identidade, processo que objetiva o máximo de rendimento com um mínimo de atenção. Esse processo – pensa Chklovski – resulta na automatização da vida psíquica, pois, em nome da rapidez, anula-se a intensidade do ato de conhecer. Nele, as coisas possuem importância apenas quando reconhecidas, esvaindo-se o entusiasmo da descoberta. O próprio conceito de aprendizado pressupõe o uso automático das noções e dos movimentos. O simples fato de uma ação se tornar habitual basta para desencadear a inconsciência em quem a executa.
Assim, a principal função da arte seria restaurar a intensidade do conhecimento, promovendo a virgindade dos contatos e o encanto da descoberta. Nesse sentido, o artista deve criar situações inéditas e imprevistas, em busca da restauração do ato de conhecer. Numa palavra, a finalidade da arte é gerar a desautomatização, mediante o estranhamento ou a singularização da estrutura que o artista oferece à contemplação. Se algo aspira à condição de enunciado artístico, precisa ser dito de forma impressionante. Ao contrário do convívio cotidiano com as coisas, o convívio com a arte deve ser particularizado, dificultoso e lento. Tomando o texto poético como metonímia da arte, o morfologista russo entende que a particularização do texto decorre de técnicas específicas aplicadas às palavras, em seus níveis semântico, sintático e fonológico: instaura-se a consciência lingüística da literatura.
Desfaz-se, enfim, a concepção do senso comum segundo o qual literatura é expressão imediata da vida, como se o texto não fosse um simulacro convencional de signos. Pela perspectiva desses teóricos, o desconforto dos enunciados inovadores integra o complexo de propriedades que atribuem valor estético ao texto. (...)
Segundo a teoria de Chkloviski, as imagens são um dos dispositivos pelos quais o poeta singulariza o texto, mediante a produção do estranhamento, responsável pela dificuldade que atribui densidade à percepção estética. Elas são uma das possíveis manifestações da idéia de procedimento artístico, que é o conjunto de atitudes rumo ao desvio da linguagem comum em favor do insólito e do imprevisto. Embrionária em Aristóteles, essa idéia dominou as perspectivas seiscentistas, chegando até o século XVIII, quando encontrou clara expressão em Muratori (...) onde se lê que o poeta reveste suas matérias “de tal maneira e lhes dá um tal colorido que aparecem cheias de novidade e de beleza, por virtude do maravilhoso e esquisito artifício, da vivacidade da pintura e do novo ornato poético que lhes deu”.
(...)
Na literatura brasileira talvez o exemplo mais evidente de procedimento artístico bem sucedido se encontra em Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que a perspectiva de um defunto é responsável pelo estranhamento do texto. A abertura do capítulo XI de O Alienista também se constrói conforme o princípio da singularização, capaz de conduzir o leitor ao centro da narrativa:
“E agora prepare-se o leitor para o mesmo assombro em que ficou a vila ao saber um dia que os loucos da Casa Verde iam todos ser postos na rua.
– Todos?
Todos.
– É impossível; alguns sim, mas todos...
– Todos. Assim o disse ele no ofício que mandou hoje de manhã à câmara”.
O estranhamento provocado pelo texto decorre sobretudo da inclusão do leitor no universo dos habitantes de Itaguaí, cujo espanto com o recolhimento dos loucos fora tão grande quanto com a súbita libertação deles: conhecedor do assombro em que vivia a cidade, o leitor é convidado a sentir o mesmo espanto dos moradores, deixando a posição de espectador para assumir o estatuto de personagem (leitor incluso). A desautomatização decorre também da reiteração intensiva do vocábulo todos, pronunciado quatro vezes em diferentes tons de surpresa.
A abordagem tradicional afirma que O Alienista é uma novela sobre a falácia da ciência, a precariedade do conceito de loucura e o autoritarismo dos governos. Os formalistas colocariam o problema de outra forma: as incertezas da ciência e a arbitrariedade dos governos são um dispositivo para o exercício da alegoria. A motivação inicial de Machado teria sido a formulação da sátira ou do escárnio alegórico, categorias preexistentes ao tema da loucura mal interpretada. Assim, os procedimentos buscam suas matérias cujo resultado é a forma literária. Com isso, elimina-se a idéia de que as matérias podem ser incluídas ou excluídas de um texto, como se fossem o conteúdo de uma garrafa. Conforme essa visão, a literatura nunca é sobre as coisas ou situações. Será sempre o resultado da adequação entre procedimento e matéria, fenômeno que automaticamente a insere num código de referência literária.
Surge daí um conceito funcional de literatura, entendida não mais como um discurso ornado e ficcional que visa à imortalidade, mas como um modo especial de articulação da linguagem, cuja idéia de valor é rigorosamente relativa, pois leva em conta tanto a estrutura verbal do texto quanto a percepção do leitor e o eventual desgaste das formas, que, de estranhas e desautomatizadoras, podem, com o passar do tempo, se tornar corriqueiras e previsíveis. Até então, jamais se chegara a um conceito tão relativo do valor da obra de arte, que passou a ser definida como uma estrutura sígnica contrária ou divergente do padrão dominante.
(...) ... todas as escolas literárias fundamentam suas posturas com a idéia da incorporação do real: assim procederam os românticos, os realistas, os simbolistas, os futuristas, os impressionistas e os expressionistas. Entre nós, convém lembrar que até a poesia concreta, ao romper com a linguagem discursiva, opinião fez sob o pretexto da incorporação de certos traços dinâmicos da realidade industrializada.
Os românticos alemães afirmavam que o reino da fantasia é a própria realidade. Novalis, em particular, proclamou que, quanto mais poético o enunciado, tanto mais real. Como conclusão, Jakobson propõe que se tome o termo realismo como um código convencional segundo o qual as diversas gerações procuram validar seus experimentos poéticos. Mas não deixa de explicitar que a realidade não se confunde com a arte, cuja estrutura sígnica deve ser apreendida com toda a consciência das convenções intrínsecas a seu modo de ser.
