domingo, 14 de agosto de 2011

CRÍTICA LITERÁRIA

[Texto para a aula do dia 19/08]

“É mais difícil interpretar as interpretações do que interpretar as coisas, e há mais livros sobre os livros do que sobre outro assunto”, já afirmava Montaigne. E o autor dos Ensaios prosseguia: “limitamo-nos a glosar uns aos outros. Tudo pulula de comentários; de autores há grande carência”. Quatro séculos mais tarde, o dito nada perdeu de sua pertinência. Os violentos debates travados, a partir dos anos 60, em torno do que se chamou de “nova crítica”, tinham certamente como motivos imediatos questões de método; mas, em profundidade, eles levantavam a espinhosa questão do papel da crítica nos modos de consumo literário. Papel necessário, segundo alguns, nefasto, segundo outros.

Não se pode negar que certo terrorismo metodológico e ideológico condicionou fortemente, há algumas décadas, o ensino da literatura e a própria criação literária. Julien Gracq, em La littérature à l’estomac, resolveu denunciar esse desvio que privilegia a palavra do crítico em detrimento da obra do escritor. E em Lettrines ele indaga: “Que dizer àquelas pessoas que, pensando possuir uma chave, não sossegam enquanto não dispuserem vossa obra em forma de fechadura?” O perigo do discurso crítico é, com efeito, sempre empobrecer a obra a que ele se refere, em nome de uma coerência artificial ou de um dogmatismo metodológico. Céline achava “vergonhoso” e “humilhante” o espetáculo do “letrado esmiuçando maliciosamente um texto, uma obra” (Ninharias por um massacre). Bem antes dele, Montesquieu assimilava os críticos aos “maus generais de exército, que, não podendo invadir um país, contaminam-lhe as águas”.

A crítica seria, então, mortal para a literatura? Ela lhe é igualmente indispensável, e seu desconforto vem do paradoxo que a constitui: a obra literária necessita de um discurso que a comente e esclareça; ela o exige mesmo, visto que pertence ao universo da linguagem; mas chega sempre um momento em que o ato crítico tende a bastar-se a si mesmo, e a relegar a obra à posição de simples pretexto.

Essa legitimidade, e esses perigos, caracterizam todas as atividades que, de perto ou de longe, participam do comentário dos textos: a resenha jornalística, a exposição universitária, a “explicação do texto” praticada em aula, a reflexão do “poeticista” e mesmo a troca de opiniões entre dois leitores... Em todas essas situações, a literatura é objeto de discurso, de avaliação e de julgamento.

Foi a crítica universitária (...) que mais se interrogou sobre as modalidades de tal apreciação. Entre um Baudelaire, para quem a crítica só podia ser apaixonada, e os comentaristas atuais, geralmente ciosos de ponderação, foram as ciências humanas que subverteram as condições do discurso realizado sobre a literatura. Os desenvolvimentos da História, da Sociologia, da Psicanálise constituíram o sujeito humano em objeto de análise e o texto literário em espaço de conhecimento tanto quanto em meio de fruição estética. A crítica tendeu, pois, a tornar-se ciência, mobilizando procedimentos codificados de análise e uma bagagem conceitual precisa.

Geralmente estamos convencidos, atualmente, dos perigos de uma crítica ciosa unicamente de cientificidade: para que ela seja possível, não seria preciso que, primeiro, o texto literário pudesse ser assimilado a um puro objeto? Ora, um texto é sempre lido por alguém: sua existência depende do olhar de um leitor, e das condições sempre variáveis de sua recepção. Mas tal evidência não leva de modo nenhum a uma fria concentração sobre o subjetivismo da apreciação pessoal: quem poderia desdenhar os novos meios de compreensão que devemos à História, à Sociologia, à Psicanálise ou à Lingüística?

(...)



(BERGEZ, Daniel. IN: BERGEZ, Daniel (org.) Métodos críticos para a análise literária.Trad. de Olinda Maria Rodrigues Prata. São Paulo: Martins Fontes, 1997)

Nenhum comentário:

Postar um comentário